Computação quântica: como preparar sua empresa para a próxima geração da segurança digital

Os avanços da computação quântica já ultrapassaram o universo da pesquisa acadêmica e passaram a integrar o planejamento tecnológico de grandes organizações. Embora essa tecnologia ainda esteja em fase de evolução, seus desdobramentos já influenciam debates sobre inovação, processamento de dados e, principalmente, segurança da informação.

Para empresas que lidam com informações estratégicas, a questão deixou de ser apenas quando os computadores quânticos alcançarão maior maturidade, mas como preparar a infraestrutura e as estratégias de proteção para acompanhar essa transformação. Afinal, adaptar mecanismos de segurança exige planejamento, testes e atualização contínua dos ambientes tecnológicos.

Ao longo deste artigo, será possível entender o que é computação quântica, como ela funciona e por que essa tecnologia já faz parte das discussões sobre o futuro da cibersegurança. Também serão apresentados os principais desafios para as organizações e as estratégias que podem fortalecer essa preparação desde agora.

 

O que é computação quântica?

A computação quântica é um modelo de processamento que utiliza princípios da mecânica quântica para executar cálculos de maneira diferente da computação tradicional. Enquanto os computadores convencionais trabalham com bits, que representam apenas os valores 0 ou 1, os computadores quânticos utilizam qubits, unidades capazes de assumir diferentes estados simultaneamente.

Esse comportamento é possível graças a fenômenos como a superposição, que permite ao qubit representar múltiplas possibilidades ao mesmo tempo, e o emaranhamento quântico, propriedade que estabelece uma forte correlação entre qubits mesmo quando estão fisicamente separados. Esses conceitos ampliam significativamente a capacidade de processamento para determinados tipos de problemas.

Isso não significa que a computação quântica substituirá os computadores atuais em todas as situações. Seu potencial está concentrado em desafios extremamente complexos, como simulações científicas, otimização de processos e desenvolvimento de novos algoritmos criptográficos, áreas em que a computação clássica encontra limitações naturais.

 

Como funciona um computador quântico?

Um computador quântico processa informações manipulando o estado dos qubits por meio de operações matemáticas específicas. Como cada qubit pode representar diferentes possibilidades simultaneamente, o sistema consegue explorar diversos caminhos para resolver um mesmo problema durante o processamento.

Tal característica é frequentemente associada ao chamado paralelismo quântico. Na prática, determinados cálculos podem ser executados de forma muito mais eficiente do que em arquiteturas convencionais, especialmente aqueles que envolvem um grande número de combinações possíveis ou relações altamente complexas entre os dados.

Apesar desse potencial, a tecnologia ainda enfrenta importantes limitações. Os computadores quânticos atuais possuem quantidade restrita de qubits, são extremamente sensíveis a interferências externas e exigem condições específicas de operação, fatores que limitam sua aplicação em larga escala.

Essa realidade, porém, não elimina a necessidade de planejamento. Como explica Bruno Ortale, Head de Cibersegurança na Delfia, a computação quântica já faz parte da realidade das empresas, com o uso de equipamentos em clouds públicas, embora ainda não represente um risco iminente para a criptografia de dados.

“O risco pode se tornar real quando uma empresa demorar mais tempo para ajustar todos os seus algoritmos criptográficos para PQC (Post-Quantum Cryptography). Imagine que é uma corrida: se a inovação chegar primeiro, você está vulnerável”, diz Ortale.

“Mas isso não exime o risco que temos hoje, pois as PQCs já estão disponíveis para utilização e muitas companhias confiam em decriptação ou proxy SSL para inspecionar e tratar dados, assim como prevenir vazamentos. Possuir um equipamento que não suporta as novas cifras expõe o risco de não monitoramento profundo de determinadas aplicações”, complementa o especialista, que tem mais de 15 anos de atuação em Segurança da Informação..

 

Por que a computação quântica preocupa a cibersegurança?

Grande parte dos mecanismos de criptografia utilizados atualmente protege as informações por meio de problemas matemáticos extremamente difíceis de serem resolvidos por computadores convencionais. É justamente essa complexidade que garante a confidencialidade de dados financeiros, comunicações, certificados digitais e diversas outras informações sensíveis.

Com a evolução da computação quântica, alguns desses algoritmos poderão ser quebrados em um tempo significativamente menor. Embora esse cenário ainda dependa do amadurecimento da tecnologia, organizações que armazenam dados com longo ciclo de vida já precisam considerar esse risco em seus planejamentos, principalmente quando a substituição dos mecanismos criptográficos exige anos de preparação.

A preocupação, portanto, não está apenas na capacidade futura dos computadores quânticos, mas no tempo necessário para que empresas adaptem aplicações, dispositivos e processos. Quanto maior a complexidade do ambiente, maior tende a ser o esforço para atualizar algoritmos, validar integrações e garantir que a operação continue segura durante essa transição.

 

O que é Harvest Now, Decrypt Later?

Entre os riscos associados à computação quântica, um dos mais discutidos é a estratégia conhecida como Harvest Now, Decrypt Later, expressão que pode ser traduzida como “coletar agora, descriptografar depois”. A lógica consiste em interceptar e armazenar dados criptografados hoje para tentar decifrá-los futuramente, quando a capacidade computacional permitir.

Essa estratégia faz sentido porque muitas informações permanecem valiosas por anos. Registros financeiros, propriedade intelectual, contratos, documentos estratégicos e dados governamentais podem continuar sensíveis mesmo muito tempo após sua transmissão. Se permanecerem protegidos por algoritmos vulneráveis à computação quântica, poderão ser expostos no futuro.

Organizações que lidam com informações críticas ou precisam cumprir requisitos regulatórios tendem a apresentar maior exposição a esse tipo de risco. Por isso, preparar a infraestrutura antes que a ameaça se concretize é uma medida de gestão de risco, e não apenas uma resposta à evolução tecnológica.

 

Como preparar a empresa para a era da computação quântica?

A preparação para a computação quântica envolve muito mais do que substituir algoritmos criptográficos. Ela exige conhecimento sobre a própria infraestrutura, governança dos ativos digitais e planejamento para realizar mudanças graduais sem comprometer a continuidade das operações. Algumas iniciativas podem orientar esse processo.

  • Mapear os ativos criptográficos: identificar onde a criptografia está presente na organização, incluindo aplicações, certificados digitais, bancos de dados, dispositivos e canais de comunicação.
  • Identificar os algoritmos utilizados: compreender quais padrões criptográficos protegem cada sistema facilita a definição das prioridades para migração futura.
  • Avaliar dependências tecnológicas: verificar se aplicações, equipamentos e fornecedores oferecem suporte às novas cifras resistentes à computação quântica evita incompatibilidades durante a transição.
  • Planejar a atualização da infraestrutura: incorporar esse tema ao roadmap de renovação tecnológica permite distribuir investimentos ao longo do tempo e reduzir impactos operacionais.
  • Fortalecer o inventário de ativos: manter um inventário atualizado facilita o controle sobre os componentes que precisarão ser revisados durante a adoção de algoritmos pós-quânticos.
  • Revisar políticas de segurança: processos de governança, gestão de chaves criptográficas e controles de segurança também precisam evoluir para acompanhar as novas exigências tecnológicas.

 

O que é criptoagilidade e por que ela será essencial?

Criptoagilidade é a capacidade de substituir ou atualizar algoritmos criptográficos com rapidez, sem exigir mudanças profundas na arquitetura dos sistemas. Em vez de depender de uma única tecnologia por longos períodos, a organização desenvolve mecanismos que permitem adaptar sua proteção conforme novos padrões são adotados pelo mercado.

Essa característica reduz o impacto operacional durante as transições tecnológicas. Sempre que um algoritmo se tornar obsoleto ou vulnerável, a atualização poderá ocorrer de forma mais estruturada, preservando a continuidade dos serviços e diminuindo os riscos associados à migração.

Em ambientes complexos, nos quais aplicações, dispositivos e serviços estão fortemente integrados, essa flexibilidade é ainda mais importante. Quanto maior o número de dependências entre os componentes, maior será a necessidade de coordenar mudanças de forma planejada para evitar interrupções ou incompatibilidades.

De acordo com Bruno Ortale, essa preparação deve começar pela compreensão da capacidade tecnológica existente. “Primeiro de tudo, precisamos entender se nossos dispositivos já são capazes de processar cifras quânticas e, caso contrário, adicionar isso ao nosso roadmap de renovação tecnológica. Em seguida, iniciar a migração das cifras utilizadas para cifras mais modernas, vencendo assim essa corrida.”

 

A preparação começa antes da chegada da computação quântica

Esperar que a computação quântica alcance maturidade para só então revisar a estratégia de segurança pode aumentar significativamente o esforço de adaptação. Em ambientes corporativos complexos, a substituição de algoritmos criptográficos envolve aplicações, infraestrutura, dispositivos, integrações e processos que evoluíram ao longo de muitos anos.

Por isso, a preparação depende de uma visão sistêmica da operação. Antes de definir tecnologias ou priorizar investimentos, é preciso compreender as relações entre os diferentes componentes do ambiente, identificando dependências que podem influenciar uma futura transição para algoritmos resistentes à computação quântica.

É justamente nesse ponto que a curadoria de jornadas digitais faz diferença. Mais do que recomendar ferramentas, esse trabalho envolve diagnosticar o ambiente, orquestrar decisões e garantir que mudanças tecnológicas sejam planejadas de acordo com os desafios e objetivos de cada organização.

Na prática, essa preparação também passa pelo fortalecimento de capacidades essenciais para ambientes críticos. Investir em uma estratégia de observabilidade de TI amplia a visibilidade sobre aplicações, infraestrutura e serviços, enquanto uma abordagem estruturada de cibersegurança cria bases mais sólidas para proteger operações diante de novas ameaças.

Com sua curadoria de jornadas digitais, a Delfia apoia organizações na construção de estratégias tecnológicas mais preparadas para cenários de transformação. A partir de uma visão orientada por diagnóstico e orquestração, contribuímos para identificar riscos, avaliar dependências e definir caminhos de evolução para ambientes de TI cada vez mais complexos.

 

FAQ: Perguntas frequentes sobre computação quântica

A computação quântica ainda desperta muitas dúvidas, principalmente quando o assunto é seu impacto na segurança da informação. Confira algumas das perguntas mais comuns sobre o tema:

A computação quântica já é usada pelas empresas?

Sim. Embora ainda existam limitações técnicas, empresas e centros de pesquisa já utilizam computadores quânticos disponíveis em plataformas de nuvem para desenvolver estudos, testar algoritmos e explorar novas aplicações em áreas como otimização, química, logística e inteligência artificial.

Quais setores serão mais impactados pela computação quântica?

Setores que armazenam grandes volumes de informações sensíveis tendem a sentir os primeiros impactos, como instituições financeiras, saúde, telecomunicações, governo, defesa e empresas de tecnologia.

O Brasil já possui iniciativas em computação quântica?

Sim. Universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras participam de projetos voltados ao desenvolvimento da computação quântica, além de utilizar plataformas internacionais para pesquisa, experimentação e capacitação de profissionais.

Os computadores quânticos substituirão os computadores tradicionais?

Não. As duas tecnologias possuem características diferentes e devem coexistir. Enquanto os computadores convencionais continuarão sendo a melhor opção para a maioria das tarefas do dia a dia, os computadores quânticos serão direcionados a problemas altamente complexos, nos quais oferecem vantagens específicas.

O que são algoritmos pós-quânticos?

São algoritmos criptográficos desenvolvidos para resistir a ataques realizados por computadores quânticos. Eles fazem parte das estratégias de preparação para a próxima geração da segurança digital e deverão substituir gradualmente alguns dos padrões criptográficos utilizados atualmente.